Em sua viagem de 4 dias a Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tentou se apresentar como o principal porta-voz do chamado Sul Global ao dar um passo, ainda que incipiente, para uma reforma ampla da ONU (Organização das Nações Unidas) e cobrar maior participação da região nas decisões da instituição.
Com a expectativa de vender uma agenda verde e atrair investimentos, admitiu que precisa fazer mais internamente. Cobrou, porém, ajuda dos países ricos, especialmente financeira, por solução para a crise climática e disse que o “planeta está farto de acordos não cumpridos”.
Formulário de cadastro
O principal palco de Lula foi a abertura da 79ª Assembleia Geral da ONU, em que presidentes brasileiros são, por tradição, os primeiros a discursar. Mas o petista também promoveu reunião com países considerados democráticos para discutir a defesa da democracia e o combate aos extremismos, especialmente de setores da direita.
Assista (19min26s):
Embora tenha deixado a crise político-eleitoral da Venezuela de fora de seu discurso na assembleia, o assunto foi trazido pelo presidente do Chile, Gabriel Boric, no encontro dos países democráticos. O chileno criticou os líderes de esquerda por não se posicionarem contra violações de direitos humanos cometidos por outros líderes do mesmo espectro político.
Lula conversou com as 3 principais agências de classificação de risco, a Standard & Poor’s, Moody’s Rating e Ficht, para, segundo ele, apresentar pessoalmente os resultados da economia brasileira. Disse que as empresas não precisam ouvir só a “Faria Lima e os empresários”, em referência à rua da cidade de São Paulo onde muitas empresas do mercado financeiro operam. Disse ter oferecido uma “marca de estabilidade”. O petista gostaria de retomar o grau de investimento do país, perdido há quase uma década.
O petista também disse não ver contradição por ter se reunido com o CEO global da Shell, Wael Sawan, em um encontro que não estava previsto em sua agenda oficial. A reunião causou um mal-estar em seu próprio governo por ter sido entendida internamente como contrária à “agenda verde” levada à Nova York. O presidente afirmou que se encontrou com uma empresa que atua há 100 anos no Brasil e que tem “contribuído dentro da lógica e das exigências da política energética” do país.
O petista fez uma defesa enfática da Palestina logo no início do seu discurso na Assembleia Geral, na 3ª feira (24.set.2024), ao saudar a presença do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. É a 1ª vez que a Palestina participa da Assembleia Geral. Seu status é de Estado observador. A primeira-dama Janja Lula da Silva acompanhou o presidente trajando um blazer confeccionado por artesãs palestinas. Em seu discurso, Lula disse que a ONU teve coragem de criar o Estado de Israel, mas não tem coragem de criar o Estado da Palestina.
Assista (1min20s):
Ainda recebeu o prêmio GoalKeepers, concedido pelo empresário bilionário Bill Gates, por sua atuação em políticas públicas de combate à fome, em especial, o Bolsa Família. O fundador da Microsoft chamou o brasileiro de “inspirador” e enfatizou que o presidente passou fome na infância. No evento, Lula afirmou que os ricos não precisam do Estado e alfinetou Gates ao dizer que considera “louvável” que o empresário tenha criado uma fundação, mas que não são doações privadas que vão resolver a fome no mundo, mas a ação dos governos.
Leia mais sobre a ida de Lula a Nova York:
Janja chega antes – a primeira-dama desembarcou nos EUA em 18 de setembro; participou de um evento na Universidade Columbia, em que falou que as queimadas no Brasil são“ações criminosas terroristas”;
Cúpula do Futuro – Lula participou do evento da ONU em 22 de setembro, declarou que o Sul Global não é representado e viu seu microfone ser cortado no fim do discurso depois de extrapolar o tempo de 5 minutos permitido para falar;
encontro com a Shell – Lula e ministros de seu governo se reuniram com o presidente da empresa em encontro fora da agenda oficial; a reunião causou um mal-estar na administração petista por ser entendida internamente como contrária à “agenda verde”; Lula negou contradição e disse que se reuniu com uma empresa que atua há 100 anos no Brasil e que é sócia da Petrobras em 60% dos postos leiloados;
barrados na porta – o presidente desistiu de participar de um evento da Clinton Foundation após o Serviço Secreto dos EUA barrar parte da comitiva brasileira;
Bill Gates dá prêmio para Lula – a premiação se deve às políticas de combate à fome nos governos do petista;
discurso na 79ª Assembleia Geral da ONU – Lula defendeu a criação de um Estado palestino, condenou os ataques israelenses ao Líbano, afirmou que a fome é resultado de “escolhas políticas”, criticou “falsos patriotas” e big techs “que se julgam acima da lei”;
grau de investimento– Lula e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, se reuniram com agências de classificação de risco para discutir a volta do grau de investimento brasileiro; depois, a jornalistas, o ministro afirmou que o Brasil terá taxas de inflação “sucessivamente menores” nos próximos anos;
Fernanda Torres na ONU – a atriz se encontrou com Lula e Janja; cotada para uma indicação ao Oscar, ela criticou a “agressividade” nas eleições em São Paulo, em referência à cadeirada de Datena (PSDB) e ao soco no marqueteiro de Ricardo Nunes (MDB) durante debates na capital paulista;
encontro com Biden e evento com Sánchez – na 3ª feira (24.set), o petista esteve brevemente com o presidente dos EUA, Joe Biden, e organizou um evento para promover a democracia junto ao premiê da Espanha, Pedro Sánchez (Psoe, centro-esquerda);
revisão na Carta da ONU – na 4ª feira (25.set), Lula disse que o Brasil cogita apresentar uma proposta de alteração na Carta da ONU em prol de uma reforma mais ampla das Nações Unidas;
foto com líder palestino – Lula publicou uma foto com Mahmoud Abbas, presidente da Palestina. No encontro, voltou a cobrar um cessar-fogo na guerra em Gaza;
mídia internacional ignora – a presença e os discursos de Lula na ONU tiveram pouca repercussão nos principais jornais estrangeiros.







